Trauma na infância e implicações futuras = Childhooh trauma and future implications

Débora Marques

Resumo


O trauma é codificado biologicamente no cérebro de formas variadas. Mudanças em estruturas como o hipocampo, coordenação e integração do funcionamento da rede neuronal têm sido igualmente identificadas. As mudanças referidas são refletidas nas experiências interpessoais, fisiológicas e psicológicas. O estudo de Adverse Child Experiences (ACE) identifica dez experiências adversas que poderão contribuir para o desenvolvimento do trauma psicológico: abuso físico, sexual, e, emocional, negligência física, e, emocional, exposição violência doméstica, consumo de substâncias psicoativas no seio familiar, perturbações mentais no seio familiar, separação parental e existência de um familiar enclausurado. A investigação sugere que os impactos a longo prazo da exposição ao abuso sexual, por adultos sobreviventes, resulta de desregulações neuroendócrinas crónicas, causadas pela exposição prolongada ao abuso e violência. Considerando o sistema límbico, e a resposta do eixo hipotálamo-pituitário-adrenal - resposta fight/freeze ou flight- existirá uma resposta totalitária em termos neurológicos dado que qualquer situação poderá ser considerada como potencialmente adversa. Investigações mostram que ambientes de stress contínuo levam ao aumento de cortisol, e, consequentemente à diminuição do volume do hipocampo, diminuição essa que tem sido associada a uma memória explícita diminuída o que coloca os adultos num risco superior de desenvolvimento de sintomas de Stress Pós-Traumático. Estudos demonstraram que o corpo caloso é de menores dimensões em crianças abusadas comparativamente a crianças saudáveis, o que poderá resultar em mudanças dramáticas de humor e personalidade. O estudo de ACE revelou uma relação entre trauma na infância e aumento da promiscuidade explicadas por disrupções da regulação de oxitocina, o que consequentemente promove vinculações menos discriminadas durante adultez. Um estudo conduzido em orfanatos da Roménia em 1990 demonstrou que as crianças expostas à negligência global - inclusive toque corporal, possuíam cérebros significativamente mais reduzidos. Heneghan e colaboradores encontraram que em 18.6% dos adolescentes abusados e negligenciados (idade> 12 anos) denotavam-se scores positivos para PHDA. Evidência recente demonstra a relação entre doenças como a isquemia cardíaca, cancro, doença pulmonar crónica, e o abuso durante a infância. A explicação destes resultados advém da adoção de fatores comportamentais de risco como o tabagismo, alcoolismo, dieta empobrecida e sedentarismo. Pelo que foi atrás descrito torna-se imprescindível a verificação de situações de maltrato no sentido de prevenção de possível trauma, dado que existem implicações a longo prazo. Nas crianças sujeitas a abuso físico, sexual e/ou negligência, os efeitos não são completamente irreversíveis, necessitando de uma intervenção prolongada, adequada, num contexto estável e previsível e com adultos em sintonia com as suas necessidades emocionais.


Trauma is biologically encoded in the brain in different ways. Changes in structures such as the hippocampus, coordination and integration of the functioning of the neural network have also been identified. These changes are reflected in interpersonal, physiological and psychological experiences. The Adverse Child Experiences (ACE) study identifies ten adverse experiences that may contribute to the development of psychological trauma: physical, sexual, and emotional abuse, physical neglect, and emotional exposure to domestic violence, consumption of psychoactive substances within the family , mental disorders in the family, parental separation and existence of a cloistered relative. The research suggests that the long-term impacts of exposure to sexual abuse by surviving adults result from chronic neuroendocrine disruptions, caused by prolonged exposure to abuse and violence. Considering the limbic system, and the response of the hypothalamic-pituitary-adrenal axis - fight / freeze or flight response - there will be a totalitarian response in neurological terms since any situation can be considered as potentially adverse. Investigations show that environments of continuous stress lead an increase in cortisol, and, consequently, a decrease in the volume of the hippocampus, a decrease that has been associated with a decreased explicit memory which places adults at a higher risk of developing symptoms of Posttraumatic Stress. Studies have shown that the corpus callosum is smaller in abused children compared to healthy children, which can result in dramatic changes in mood and personality. The ACE study revealed a relationship between childhood trauma and increased promiscuity explained by disruptions in oxytocin regulation, which consequently promotes less discriminated linkages during adulthood. A study conducted in Romanian orphanages in 1990 showed that children exposed to global neglect - including body touch, had significantly smaller brains. Heneghan and colleagues found that in 18.6% of abused and neglected adolescents (age> 12 years), positive scores for ADHD were noted. Recent evidence demonstrates the relationship between diseases such as heart ischemia, cancer, chronic lung disease, and abuse during childhood. The explanation for these results comes from the adoption of behavioral risk factors such as smoking, alcoholism, impoverished diet and physical inactivity. From what was described above, it is essential to verify situations of abuse in order to prevent possible trauma, given that there are long-term implications. In children subjected to physical, sexual abuse and / or neglect, the effects are not completely irreversible, requiring a prolonged, adequate intervention, in a stable and predictable context and with adults in line with their emotional needs.


Palavras-chave / Keywords:

Trauma, Experiências adversas, Neurobiologia, Psicológico.

Trauma, Adverse experiences, Neurobiology, Psychological.


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